9.12.05

Da arte de fugir

Ela morava numa cidade pequena, interior de São Paulo.
O conheceu numa quermesse.
Namorou escondido, pois o pai nem a deixava sair de casa.
Naquele tempo moça só namorava com o consentimento do pai.
Só que o maior problema era a idade do moço,
mais de 20 anos mais velho que ela.

Na verdade, nem era amor o que ela sentia.
Até porque nem sabia o que era isso.
Amor de pai não conhecera, de mãe até que teve, mas a total submissão da mãe ante a braveza do pai sempre a fez achar que os dois eram iguais.
Assim, gostou do moço que a cortejou frente ao carrinho de pipoca e a fez pela primeira vez na vida se sentir desejada e importante.

O moço até que era um bom rapaz.
Na verdade, era um senhor.
Ela 20 e ele 40.
A família dele tinha umas posses na cidade, mas ele era de uma simplicidade tamanha que dava até pena.
Não falava, e quando falava era para concordar com alguém.
Um sem opinião. Mas era um bom homem.

Casaram-se.

Ela brigada com o pai.
Que nunca seria feliz no casamento, disse o velho agourento.
Que nunca olharia para seus filhos e que sumisse de lá.
E a coitadinha chorou até secar.

Passados mais de vinte anos, ela não enricou.
Teve filhos, desilusões, alegrias, dor e alguma paz.
Trabalha, paga as contas, atrasa outras e ainda sonha.

Às vezes se imagina dama.
Como teria sido se não tivesse fugido de casa.
Estaria bem de vida, é certo.
Mas, ao final, não se arrepende.
Diz pra si que faria tudo de novo.
Que fugiria com ou sem príncipe, rumo, sonho, paixão, desejo.
Fugiria só.
Correndo contra o vento até travar as pernas.
Aí deitada e olhando o céu, ficaria o resto do dia.
Até o resto do mês, do ano, do século.
Até a terra cobrir seu pequeno corpo e ela voltar
transformada em flor.

Nesse dia, em forma de pétala, fugiria na primeira rajada de vento.

E fugiria pra sempre.

2.10.05

Velhas novas canções

Artur gostava muito de rock.
Gostava também das canções velhas. Sempre as velhas canções e seus versos avassaladores.
Mas no final, não era o “rock”, era da música em si que ele gostava.
Podia ser Nelson Gonçalves, Pixies, Antônio Marcos, Tom Waits, Charlie Parker ou a banda do seu amigo de trampo. Pra ele era tudo música. Soando bem, era lindo.
Ouvia Antônio Marcos, pegava o violão e compunha algo desesperador que corria contra o tempo.

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A música.
A música o salvara de um cotidiano demente e ele devia isso a ela.
Nunca a sacanearia.
Oh, Mercy Mercy, me...
É, o Marvin sabia das coisas...

14.9.05

Historinha de uma vida besta

Era tal o trânsito naquela hora que ele ficou esperando pra sair do trabalho. Não adiantaria nada mesmo sair e encarar engarrafamento, gente fechando o cruzamento, atrapalhando outros. Enfim, por mais que sua vontade era fugir logo para casa, encontrar as meninas, se esparramar no sofá e ler aquele livro, não dava, aí resolveu ficar.

E ficou.

Quando chegou em casa, por volta das 10 – deveria ter saído antes, mesmo com o trânsito – a mulher dormia, as meninas dormiam e o vigia da rua nem apitou em sinal de boa noite.

Ficou com peso na consciência por perder a chance da falar com seus amores. E o peso foi aumentando que doía até.

Amanhã será diferente, pensou. Não ficaria nem mais um segundo depois do horário naquela porra.

E dormiu. E esqueceu o livro. E acordou. E trabalhou. E ficou depois do horário. E chegou em casa tarde.

Assim se passaram 30 anos.

Virou homem de posses e perdeu de vez a chance de demonstrar o tamanho do seu amor por todos à sua volta.

4.9.05

Quem é que desistiu?

Maurício passa com seus cachorros pela rua. Aí vai à praça e fica lá, molhando as plantas. De uns dias pra cá, começou a plantar algumas mudas de árvores. Ele usa um boné, daqueles com propaganda de casa de material de construção, um chinelo havaiana, um calção surrado e uma camiseta regata. Vive sozinho. Não tem filhos e nem família.

A vizinhança diz que ele é meio esquisito. Que não fala mais que duas palavras e que sempre dá desculpa para não aparecer na quermesse da igreja. Mas Maurício não se importa com isso, não. Ele é o tipo do cara que desistiu. Que abriu mão. Que entregou os pontos.

E é legal ver ele plantando uma árvore. Uma árvore que na certa ele não sentará na sombra pra relaxar ou queimar um. Mas se ele desistiu, pra quê uma árvore? Sobretudo uma árvore, que representa a coisa da vida, da história, do conhecimento.

Só que Maurício não desistiu. A árvore é a forma que encontrou para mostrar que ainda acredita. Que a despeito da sua falta de contato ele ainda assim acredita. É o seu protesto silencioso. Sua redenção. Claro, não vem ao caso o que o fez desistir. O isolamento é pra guardar a sua dor. E ele resolveu aceitar a dor e cair fora. Longe dos durões. Dos que encaram tudo até a mais humilhante derrota. Os que se glorificam por não desistir.

E Maurício não teve vergonha de abandonar e desistir. Essa é sua vitória. Ele desistiu foi de relacionamentos medíocres. Dos sorrisos amarelos. Daqueles que escondem mas cultivam e guardam preconceitos, e que na hora certa sempre são os que dão a primeira facada. E ele desistiu das conversas mesquinhas na hora do café e plantou uma árvore que nunca sentará na sombra.

E quem é que desistiu?